Apenas uma crônica.

28.dezembro.2011

Ao lado da biblioteca municipal há um parque, desses que pais e mães levam seus filhos para brincar. Roda-roda, balanços e até uma centopeia estão à disposição dos pequenos. Eu sentei-me num dos bancos, mas o sol de dez horas começou a incomodar-me. Avistei, bem ao centro do parque, vários bancos sob uma frondosa árvore. Não sei dizer que árvore era aquela, não entendo nada de árvores.

Não havia crianças. Num dos bancos, próximo ao lago, um casal se pôs a conversar. Entre uma crônica e outra, meu olhar se perdia no horizonte. Ao fundo, o som dos carros que trafegavam na avenida. Próximo a mim, o canto de um ou outro pássaro. Na verdade, tratava-se mais de seus piares que de seus cantos, mas, assim como de árvores, nada entendo de pássaros.

Eis que, mesmo sob aquela caridosa árvore, os raios solares das onze horas começavam a fritar minhas pernas. Troquei de banco. Nele havia um par de chaves, soltas e esquecidas, propositalmente ou não, sobre a madeira. Recolhi as chaves e busquei outro banco, visto que aquele apresentava demasiadas marcas deixadas pelas aves que lá gorjeavam.

Durante não mais que cinco minutos, fiquei confabulando que portas aquelas misteriosas chaves abririam ou, talvez, quais segredos escondiam. Retomei o livro de crônicas e pus-me a rir feito tonto com uma delas, de Ignácio de Loyola Brandão, a que tratava do caso das calcinhas no cinema… imaginei a cena no cinema do shopping, seria hilário.

Um casal de patos resolveu dar o ar da graça, ou seria uma dupla? Sei lá, também não entendo nada sobre patos. Me olharam de soslaio, atraídos pelas minhas risadas talvez. Talvez pensaram que eu lá teria um pedaço de pão ou algo que o valha. Continuei a ler e eles, o casal ou dupla, foram patear por outras bandas.

Já era quase meio-dia. Fechei o livro, olhei novamente ao meu redor e, com aquele par de chaves nas mãos, segui o caminho até onde havia deixado o carro estacionado. Próximo ao lago, imaginado o passado daquelas chaves, resolvi dar-lhes um destino. Enquanto dizia ao vento “que esta sirva para fechar o ano que se finda e esta outra me abra novos caminhos para o ano que se inicia”, lancei ambas nas águas do lago.

;)

Domingo!

11.setembro.2011

Não sei o que fazer
Não sei o que fazer
Eu saio por aí
Sem ter aonde ir

Assim começa a música Domingo dos Titãs… assim começa o meu domingo!

Hoje é dia de fazer almôndegas. Almôndega, aquele bolinho de carne que vai muito bem com espagueti, é um nome engraçado. Tente pronunciar almôndegas em voz alta e não rir… al-môn-de-gas… sei lá, acho engraçado porque termina com Degas, meu apelido dos tempos de colégio. Dégas, com tonicidade no “De”, ao contrário da pronuncia francesa, que coloca a tonicidade no “gas”. Degás.

Edgar Degas foi um pintor francês. Pintava bailarinas. Um dia, nas aulas de educação artística, a professora falando sobre Edgar Degas inevitavelmente me lançou à chacota… o único Edgar da classe seria o pintor das bailarinas… isso foi lá pela 3ª ou 4ª série, época em que meninos não gostam muito de bailarinas… o fato é que dali em diante eu era o Degas. Gostei, assumi o pseudônimo. Quando comecei a quebrar códigos de jogos de computadores, já adolescente, Degas era meu codinome (além de EdMorte)… Degas Games.

Quase trinta anos depois, vi as obras de Edgar Degas expostas em Barcelona. Suas bailarinas eram expostas junto às interpretações de um outro gênio das artes: Pablo Picasso. A exposição “Picasso mira Degas” não seria a mesma coisa se eu não fosse o Edgar que ganhou a alcunha de Degas nas aulas de educação artística!

Voltemos às almôndegas. Carne moída com alguns condimentos, ovos e farinha de rosca. Carne moída é o que, segundo The Wall, da banda Pink Floyd, fazemos de nossas crianças na escola… mas eu não quero falar de escola, não hoje, não num domingo!

Eu gosto de Pink Floyd, mas de algumas coisas só… Pink Floyd é muito calmo para minha mente inquieta. Sunday blood sunday, do U2, fala sobre a intolerância… e, por acaso hoje, domingo, é 11 de setembro… blood sunday!

Acho que domingo não é um bom dia para blogar… será?

Domingo, dos Titãs termina assim:

Domingo eu quero ver o domingo passar
Domingo eu quero ver o domingo acabar
Domingo eu quero ver o domingo passar
Domingo eu quero ver o domingo acabar
Até o próximo, até o próximo, até o próximo domingo
Até o próximo, até o próximo, até o próximo domingo

Até!

Hacker, Cracker e Popcorn!

17.agosto.2011

A mídia cinematográfica tem um grande poder informativo. Pena que em certos casos, a informação nos chegue de maneira equivocada, para não dizer tendenciosa. Veja, por exemplo, o termo Hacker. Na cultura dos desenvolvedores de programas de computadores, o hacker é um especialista em programação que busca sempre superar desafios intelectuais. Mas hacker não limita-se a isso, Eric Raymond*, guru da cibercultura, assim define o termo hacker: “Um especialista ou entusiasta de qualquer gênero”. Um hacker pode ser um engenheiro, astrônomo ou professor! Basta que dentro de sua atividade ele busque superar os desafios intelectuais que a mesma lhe impõe.

Já o cinema gosta de retratar o hacker de duas formas bastante peculiares. Ou trata-se ou do ultra-especialista em tecnologia que, seduzido pelo “lado negro da força”, se lança nas mais variadas atividades criminosas que envolvam o uso de computadores; ou do adolescente desajustado, de elevado Q.I. e com um círculo social que se limita ao seu vizinho (igualmente adolescente, desajustado e de elevado Q.I.) e seu hamster.

Essa forma estereotipada do Hacker ultrapassa as telas do cinema e passa a integrar o cotidiano dos telejornais. Não é raro assistir a um noticiário que qualifica de “hacker” um sujeito que, sem muitas habilidades em informática, se utiliza de programas prontos e técnicas rudimentares, muito mais ligadas à sua má-fé e à ingenuidade de terceiros, que a um alto conhecimento técnico. De especialista em alta tecnologia esse meliante não tem nada, mas graças à banalização do termo, hacker passou a ser sinônimo de criminoso!

Leonardo DaVinci não pensou em computadores na sua época, embora tenha sido uma das mentes mais brilhantes da humanidade, antecipando em seus projetos máquinas fantásticas para sua época, como o helicóptero. Nenhum hacker “do bem” da atualidade negaria a DaVinci o título de hacker, afinal esse é o espírito do hacker, um explorador dos limites do conhecimento. Einstein foi um hacker da Física. Pasteur um hacker da Química. Alguém duvida?

Crackers! Esse é o nome dado às pessoas que usam a tecnologia para cometer crimes. Nem sempre essas pessoas são hackers, embora isso possa acontecer. Em geral o cracker usa programas prontos e técnicas de engenharia social para enganar outras pessoas e conseguir acesso a sistemas de computadores. É comum hoje em dia receber emails falsos que pedem para você confirmar dados bancários na tentativa de roubar senhas de contas bancárias. Por trás desses emails encontram-se pessoas que na maioria das vezes sequer sabem programar. Usando programas prontos que circulam pela internet, seu único “mérito” é explorar a ingenuidade do usuário comum.

Na próxima vez que você ouvir uma chamada sobre a prisão de um hacker no noticiário da telinha, pegue sua pipoca e divirta-se, pois dificilmente veremos os telejornais livrarem-se da influência da telona.

* Eric Raymond é editor do The Jargon File:
http://www.catb.org/jargon/html/index.html
 
** publicada inicialmente em 2007 para o site do Senac de Sorocaba, e ainda atual!

Quão poderosos nós somos?

27.julho.2011

É, eu sei… você anda meio abandonado! Culpa do twitter… ideias surgem, viram 140 caracteres e desaparecem antes que eu consiga fazer o login em você! Talvez seja culpa do doutorado. Cada vez que penso em escrever sobre alguma bobagem qualquer, me bate um sentimento de perda de tempo… afinal o doutorado é (?) mais importante. No fundo, mea culpa, a culpa é minha, sou um ser humano! Mas hoje eu vim aqui me redimir… querido blog.

Fui provocado pelo meu irmão a escrever sobre How powerful are we?

É, veio assim mesmo, em inglês. Quão poderosos nós somos? Bom, eu sou um pessimista moderado e talvez eu comece dizendo que não, não somos! Mas não vou me precipitar. Cartesianamente, vamos dividir essa questão em partes: O que é ser poderoso? Segundo o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, poderoso pode significar

  1. adj., que tem poder de exercer domínio sobre alguém ou sobre alguma coisa;
  2. adj., que tem grande vigor;
  3. ad., que tem efeito intenso;
  4. s.m., pessoa que tem poder ou domínio sobre os outros;
  5. s.m. pl., aqueles que, numa sociedade, detêm o poder.

Vemos que nos casos 1, 4 e 5, poderoso está associado às relações poder entre pessoas e/ou coisas. Já nos casos 2 e 3 poder está associado a forças ou energias próprias. Assim, retomando a questão inicial, no sentido semântico, podemos dizer com certeza que sim, somos poderosos. Todos nós, em algum nível, exercemos poder ou domínio sobre outras pessoas ou coisas. Relações familiares, amizades, círculos sociais, trabalho, escola etc. Todos exemplos de esferas nas quais o poder se manifesta e nas quais somos, em alguma medida, poderosos. A vida em sociedade é um arranjo de poderes e, nesse sentido, enquanto seres sociais, somos poderosos. A questão fulcral, o quão poderosos somos?, encontra sua resposta em múltiplas dimensões, vejamos:

  • financeira: mais poderoso quanto mais rico;
  • sexista: homens são mais poderoso que mulheres, heterossexuais mais poderosos que homossexuais etc.;
  • educacional: mais poderosos quanto maior a escolaridade;
  • racial: mais poderosos quanto mais clara a pele;
  • estética: magros mais poderosos que gordos;
  • etc.

Na dimensão social de nossas vidas, fica claro que somos poderosos. O quão poderosos nós somos depende de circunstâncias e dos padrões que a própria sociedade, dinamicamente, estabelece. Mas você deve se lembrar que eu sou um pessimista moderado. Poder é ilusório. Transitório talvez seja um termo melhor, poder é transitório. Ser poderoso é nossa forma de sobreviver.

Metafisicamente falando, há quem acredite em um poder superior, um todo-poderoso. Nada mais simples, afinal se somos seres sociais condicionados a relações de poder, quando entramos no terreno da metafísica, esperamos que exista a mesma relação de poder e dominação naquilo que nos precede. E aqui surge uma faceta intrigante do poder. Estar sob o poder de outrém pode ser, pasme, poderoso.

Poderoso no sentido de do caso 3, pois a submissão tem um efeito poderoso sobre as pessoas. Sim, a submissão é poderosa. Submetemo-nos ao poder de outros muitas vezes pela segurança. Lembre-se que eu disse que ser poderoso é uma forma de sobreviver, mas é uma forma coletiva de sobreviver. É na relação poderoso-submisso que se encontra a sobrevivência. O que me conduz a minha afirmação-negação inicial: não, não somos poderosos. Estatisticamente falando, somos majoritariamente submissos à sociedade, à tecnologia, às divindades, à ciência… uma meia dúzia têm o poder, estão no topo. Mas ainda assim, essa meia dúzia de poderosos vive na ilusão.

Não somos poderosos, somos medrosos. O medo, esse sim, nos leva a dominar ou ser dominados. Simples. Medo da morte. Medo do fim. Medo do desconhecido. É o medo o motor da evolução do ser humano. Um reles organismo microscópico pode nos levar à morte, contra ele inventamos o poder da ciência, da medicina. Uma chuva torrencial pode causar inúmeras mortes, contra ela inventamos deuses e planos divinos. Escolher por onde ir, o que comer, onde dormir pode nos levar a morte num penhasco, numa erva venenosa, numa cova de ursos… e contra tudo isso inventamos os lideres, deixamos que eles escolham.

Quão poderosos nos somos? Zero. Somos pó de estrelas e pó de estrelas seremos!

;)

Edmorte!

Panta Rei II

02.junho.2011

Tudo passa… tudo muda… tudo está em constante transformação… fluxo… movimento. Ideias presentes na filosofia de Heráclito. Curiosamente Panta Rei (tudo flui) é o post mais famoso desde desconhecido blog. http://edmort.wordpress.com/2007/03/22/panta-rei/

O grande oráculo pós-moderno, o Google, coloca meu post em 2º lugar nas busca por ‘panta rei’, talvez por isso o meu blog tenha um modesto fluxo de visitantes… mas não era disso que eu queria falar hoje!

Panta Rei. Tudo flui… e eu vou fluindo… mudando, transformando, metamorfoseando-me… como diz o poeta-músico Oswaldo Montenegro

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?

é em cada olhar que o ‘espelho de agora’ me devolve que me (re)conheço… nas fotos antigas que retratam aquele menino com cara de bobo, aquele adolescente rebelde-nerd-sem-causa, aquele jovem inspirado a mudar o mundo… nelas eu percebo o rio que passou. Nas águas da minha história encontro desejos não realizados, amigos perdidos… é, não foi do jeito que achei que seria.

Tudo flui… o tempo flui… a água quente do banho flui pelo corpo ainda sonolento nas manhãs frias de outono-inverno… é no banho que surgem minhas melhores ideias… é no fluxo d’água que lava a alma que meus neurônios funcionam melhor… mas assim como as gotas são absorvidas pela toalha, assim as ideias me escapam, dissipam-se com os vapores tão logo a porta se abre para o closet da realidade… tudo flui, a correnteza segue seu rumo.

Meu amigo Sócrates, não o que jogou no Corinthians, o outro, grego, sempre me dizia em nossas conversas de fim de tarde lá na minha antiga casa que uma vida não examinda não merece ser vivida. Grande Sócrates! Examinar nossas vidas é um exercício doloroso, pois tendemos a congelar os momentos fluídos de nossa existência, na ânsia de revivê-los, corrigí-los ou derretê-los… dói. Examinar a vida é compreender seu fluxo. É encontrar o equilíbrio entre a foto antiga e o espelho de agora. É compreender que o que foi, foi. O Devir, o eterno vir a ser, esse é o nosso timoneiro!

Acho que estou divagando… Panta Rei! Tudo passa, muda, flui… mudemos então o foco!

Eu sou um acadêmico. Este blog é meu subterfúgio ao formalismo e ao rigor metodológico… aqui as ideias fluem, confluem, fundem e confundem… aqui eu brinco de ser poeta, brinco de ser sério, brinco de não-ser… como acadêmico, estou em meio a um doutorado, em busca de um título, em busca de respostas acadêmicas, em busca de um salário melhor… maldito vil metal, em busca da empregabilidade… como aprendiz de filósofo (do filósofo real, não o acadêmico), estou em meio ao fluxo quântico da incerteza… incerteza de quando a porção acadêmica terá um tempo (como este) para ceder ao alter-ego subversivo que agora cata-milho neste pequeno aparato tecnológico que não funciona debaixo d’água!

Eu escrevo para mim. Escrevo para me reescrever. Escrevo para alguns poucos amigos físicos, parceiros de toda a vida, seja por sangue, seja por cerveja. Escrevo para uns poucos conhecidos que me encontraram no fluxo deste info-rio. Escrevo para aqueles que inadivertidamente caem nas águas do meu blog pelo timão do google. Escrevo para ser imortal.

Continuo divagando… continuo fluindo… meu ego me chama à realidade… meu alter-ego despede-se… divagando, devagar…

Panta Rei!

 

 

 

 

 

 

Que tal um post sobre vinil?

26.maio.2011

O título deste post me foi provocado pelo meu amigo rechones há muito tempo… muito tempo em termos de internet pode ter sido ontem à tarde, semana passada ou 5 meses atrás… tempo é relativo, psicológico e, como dizem as mulheres, cruel!

Meu primeiro vinil foi um disquinho de estórinhas do Sapo Edgar narrado pelo Silvio Santos. Meu segundo vinil eu não lembro. O primeiro vinil verdadeiramente meu, comprado com o meu dinheiro, foi do Thor, uma banda de Heavy Metal oitentista e relegada ao ostracismo. Depois desse, vieram algumas dezenas, uns cinquenta talvez.

Vinil era peça de museu, mas agora é vintage. Na europa encontrei vinil de bandas recentes, de álbuns recentes, com preços indecentes frente à bagatela do CD… lá na europa vinil é cult. Impressionante como algo que, supostamente morto, ressurge com força em certos guetos culturais… guetos de elite, pois bancar a onda da volta ao vinil não é barato.

Para as novas gerações, vinil é cultura morta. Um deus morto. O digital é o novo deus. E ainda bem que novos deuses surgem… Zeus é vinil, Jesus é digital. E o que realmente me interessa é o que vem a seguir. Eu sempre estou na espectativa da próxima nova-velha-tecnologia que ainda não surgiu mas que já terá data para falecer. O DVD já era. BluRay nem tenho, nem comprei, o que vem a seguir será melhor. Dai eu compro, mesmo que seja a volta ao VHS…

Vinil é uma bosta. Risca, pega chiado, entorta no sol e ocupa muito espaço. CD é uma bosta. Risca, engasga, descasca e entorta no sol. Bom mesmo será quando o MP3 estiver dentro da cachola. Um chip biosintético acoplado ao cérebro. O MP3 toca dentro da sua cabeça. Nada de gadgets, iBostas e traquitanas que consomem bateria… a bateria é o BigMac que será queimado para alimentar o biochip. Delírios…

Vinil é legal, eu gosto. Mas eu sou um velho. Mas isso é relativo…

Na mesa ao lado da minha sentou-se um colega de labuta com um iPad… velharia, é um iPad 1.0… meu netbook philco de R$ 639,00 em 12x no Wal-Mart  ri do iPad dele… Ele, ri do meu netbook… rimos todos.

Vinil me deu muitas alegrias. Fui muito feliz no embalo dos vinis! Mas também já desejei a morte acompanhado de um vinil. Já quis acabar com a angústia. O vinil não me salvou, mas esteve ali, juntinho, pronto a soluçar…

O cara do iPad foi embora. Fez o que fez rapidamente, pois o tempo é cruel. Tempo que mata a gente. Tempo que miraculosamente me sobra nesta manhã para escrever este mal digitado post.

Milhares de ideias me vem à cabeça… uma meia dúzia delas vira palavra concreta. Vinil foi uma que escapou ao turbilhão abstrato que condena minhas ideias ao meu limbo encefálico. Vinil sobreviveu no meu ideário…sobreviveu ao CD… tem seu lugar ao sol na sociedade do consumo… mas cuidado! Vinil no sol entorta.

Adios.

O Tao das Séries!

13.novembro.2010

Sabe aqueles dias em que você acorda meio perdido, pensando que algo não está dentro da normalidade? Como se você estivesse em um flashback de Lost, sua mente te remete a situações do passado, mas não está muito claro se elas foram reais ou não, afinal nossa imaginação também funciona de maneira reversa, implantando falsas memórias ou, por vezes, distorcendo-as.

Eu já naveguei por mares metafísicos, mas minhas leituras, ainda adolescente, sempre me conduziram para uma seara mais científica. Do misticismo infantil dos Coelhos da vida, cai nas teias de Fritjof Capra. O Tao da Física tirou-me, literalmente, do chão. Essa leitura mostrou-me que aquelas ideias loucas do Richard Bach, de existências paralelas, nada mais eram que conceitos da física contemporânea romanceadas na veia literária de Bach. Capra me fez perder o encanto pelo lirismo e mergulhar na cientificidade da coisa…

Enebriado pelas leituras no campo da física quântica, da teoria das cordas e dos relativismos de Einstein, logo percebi que Capra era outro mago vendendo conceitos embalados em pseudo-filosofia oriental. Saiu Capra e entrou Prigogine, esse sim legítimo homem da ciência, abalou minhas estruturas com O fim das Certezas. Dai em diante fui me cercando de autores que levavam ciência a sério. Stephen Hawking lançou-me, sem dó nem piedade, no centro de um buraco negro, sequer tive possibilidade de gravitar próximo ao horizonte de eventos…

Tudo isso se deu na minha juventude, ou pelo menos no início dela, aos 20 anos, pois ainda me considero um jovem… mais maduro, mas ainda jovem!! Hoje, próximo dos 40, tudo aquilo que eu li e reli, afinal física teórica nunca foi o meu forte, está impregnado no cotidiano de um universo fantástico, que me trouxe de volta à magia do lirismo, repaginado sob novas formas de expressão: as séries de TV.

Sou fã de carteirinha de algumas séries. Algumas me remetem aos heróis da infância, como Smallville (sim, eu ainda acompanho Smallville, por duas razões não muito racionais: a) a mórbida curiosidade em saber que fim Kal-El leva nessa releitura do Homem-de-Aço; b) Erica Durance). Mas antes que você vá lá nos comentários me zuar, outras séries me agradam pela ficção científica: Battlestar Galactica, Caprica, Stargate Universe… e tem aquelas que exploram os conceitos que, como escrevi acima, tiraram-me do meu sono dogmático do mundo místico. Eis algumas:

Lost

Todo mundo conhece Lost. Se não conhece, deveria. Lost usa e abusa das interpretações e possibilidade sobre as implicações que as descobertas nos campos da física contemporânea. Viagem no tempo e realidades paralelas são pano de fundo de uma excelente trama, que tem seus altos e baixos ao longo de seis temporadas. O final de Lost dá uma escorregada mística, que não me agradou, mas ainda assim a série é uma ode às esquisitices contidas nessa casca de noz em que vivemos.

The Big Bang Theory

Eu rio muito com essa série. Rio porque entendo o que o Sheldon quer dizer quando faz uma ironia com o Efeito Doppler (certa vez expliquei o que era o efeito doppler ao meu sobrinho de 13 anos, que também acompanha a série e, ao final, ele me olhava como se eu fosse o próprio Sheldon!) A série é boa porque trata de assuntos científicos com o rigor devido sem perder o caramelo cômico que dá sabor ao que seria intragável em um documentário da BBC. O único problema da série e aquela loirinha feia que só atrapalha a vida do quarteto nerd… BAZINGA!

Fringe

Eu confesso! Parei de assistir Fringe no final da primeira temporada. Parei porque Fringe merece atenção total. Quase como Lost. A série a princípio parece ruim. Quando vi que um dos principais personagens era o vizinho do Dawson (Dawson’s Creek) pensei: deve ser uma bosta! (Olha quem fala, o cara assiste Smallville, adiantando a mente de algum possível leitor…). O fato é que Anna Tov fazia a série valer a pena. Fringe é uma série que trata de universos paralelos, ciência e uma vaca. Fringe é a série que eu vou assistir quando eu puder me fechar na sala de TV e ver do primeiro ao último capitulo sem pausas ou interferências…

Enfim, o contato com essas séries me permitiu resgatar toda aquela teoria lida sobre a física contemporânea e visualizar suas implicações e possibilidade numa plasticidade e fotografia que só a linguagem televisiva poderia fornecer!

Por hoje é só!

Ato e Potência

27.outubro.2010

Aristóteles, um grande amigo das antigas, me ensinou muita coisa. Uma delas é a noção de Ato e Potência, explico.

Pense numa semente. Em ato a semente é o que ela é. Um grão mínimo. Mas nessa mesma semente há uma potência, ou potencial, uma parte oculta que está contida na semente, a árvore. Antes mesmo da semente ser plantada, já está dentro dela, em potência, uma árvore. Mesmo que essa semente nunca venha a ser plantada, ainda assim a potência está lá, aguardando as condições ideais para, nesse caso, germinar.

Pessoas são sementes. Nascemos pequeninos, feios, enrugados, banguelas, analfabetos e pelados. Em ato, um recém nascido nada pode compreender da linguagem dos outros humanos que o cercam, mas está lá, dentro daquela “carinha de joelho” a potência da fala.

Muito tem me incomodado certas críticas que se fazem aos jovens de hoje em dia. Olha-se o adolescente em ato, que por natureza é um ser desajustado, seus hormônios estão ainda em fase de calibração. O adolescente, com seus gostos, modas e manias é tido como banal e vazio. Vazio? O adolescente, em ato, é pura potência. É um adulto raspando a casca que o separa resto do mundo, para mudar de metáfora.

Eu não sou mais jovem, mas ainda não me esqueci das palavras do velho Aristóteles, que um dia já foi adolescente também. Será que o jovem Aristóteles em ato adolescente demonstrava a potência filosófica lá contida? Duvido.

Assim, antes de sair por ai criticando essa molecada colorida de hoje em dia, lembre-se das críticas que você ouviu quando ainda era ovo, semente ou adolescente. Lembre-se daqueles adultos chatos que só esculachavam suas ideias, suas roupas, suas música. Lembrou? Agora vá ao espelho e se olhe, pois você hoje é um deles.

É isso!

sem inspiração!

06.outubro.2010

poucas palavras

parcas ideias

pobre imaginação

se não gostou,

vá lamber sabão!

Bolsa Vagabundo e as Eleições…

29.setembro.2010

Olá Pessoal,

Eu fico pasmo de ver quanta asneira se fala sobre bolsa-isso, bolsa-aquilo. Não vou defender nenhum partido aqui, mas apenas refletir sobre a comodidade intelectual de muita gente que grita aos quatro ventos seus mimimis…

Primeiro, não falo de gente ignorante, que não teve acesso ao estudo. Falo de gente instruída, graduada. Gente que emite opiniões das mais superficiais possíveis. Gente que sequer sabe ao certo o que significam conceitos como: república, governo, poderes tri-partidos, democracia etc. Gente que não prestou atenção às aulas de Sociologia, Política ou Filosofia… (e aqui eu abro parênteses, é certo que há professores dessas disciplinas que tampouco sabem os significados, mas isso não isenta o cidadão… alegar ignorância não vale). Gente que acha que Política é Futebol. Vê partido político como time e, pior, apóia-se na prática do torcer contra.

Mas vamos ao que interessa: distribuição de renda.

Políticas de bolsas, seja elas qual forem, visam distribuir renda. Isso não é invenção nossa. A Bélgica, por exemplo, é pioneira nas políticas de distribuição de renda. Mas por quê distribuir renda?

Numa sociedade democrática, orientada por um modelo republicano, a riqueza produzida por um país é pública, ou seja, de todos. Mas, há um problema, essa riqueza nem sempre é dividida de forma justa entre o todo. Alguns são excluídos dessa partilha. Excluídos porque não possuem renda. Não contribuem com a produção social da riqueza. Em geral, podemos colocar essas pessoas em certas categorias: pessoas inválidas (deficiências física ou mental), crianças (ainda não trabalham) e idosos (não trabalham mais), miseráveis… opa! Eis aqui o problema.

Ninguém acha que o governo, ao usar o dinheiro público na educação das crianças, está sustentando vagabundo. Muito menos que as crianças em questão deveriam virar-se por conta própria, tipo: “quer estudar, foda-se , se vira e não venha pedir pro governo bancar você, moleque filadaputa!”

Ninguém acha que o governo, ao usar o dinheiro público na saúde dos idosos, está sustentando vagabundo. Muito menos que os idosos em questão deveriam virar-se por conta própria, tipo: “tá zicado, foda-se, dá seus pulos e não venha pedir pro governo tratar você, véio lazarento!”

Mas quando o ser é miserável, no sentido da palavra: aquele que vive na miséria, ai o discurso é o seguinte: “vagabundo, filadaputa, foda-se… você é pobre, miserável porque você quer, vai trabalhar vagabundo… vagabundo quer bolsa pra não ter que trabalhar, se vira vagabundo… tá na merda é por culpa sua!”

O Brasil tem aproximadamente 15 milhões de pessoas que vivem na linha da miséria. Miséria quer dizer que elas vivem com menos de R$ 1,00 por dia. E eu me pergunto, será que um sujeito nessa condição, escolheu estar assim?

Dai vem o classe média, com 5 carnês (casa, carro, tv de plasma, x-box e plástica da patroa) na gaveta, dizer que programas de distribuição de renda é coisa pra sustentar vagabundo! Uau!

Todos os partidos, sejam eles quais forem, implementam políticas de bolsas, pois as bolsas não são para sustentar vagabundo, elas servem para 1) distribuir renda; 2) movimentar a economia. Uma coisa não funciona sem a outra, vejamos:

O sujeito recebe bolsa-família (ou o nome que for). Usa esse dinheiro para comprar arroz. Como muita gente que antes nunca conseguiria comprar arroz agora compra, a indústria do arroz precisa aumentar sua produção, beneficiamento e distribuição, ou seja, precisa de mais mão-de-obra. Mais mão-de-obra faz com que alguém antes desempregado, consiga emprego, aumente sua renda e melhore sua condição sócio-econômica e, conseqüentemente, perca a bolsa-família.

O caminho é simples, o governo dá o dinheiro da bolsa. Esse dinheiro movimenta a economia. Parte fica como lucro para a indústria do arroz, parte volta para o governo na forma de tributos. E o cidadão vive melhor.

Ok, virão as criticas, pois tem o cara que usa o dinheiro da bolsa para comprar pinga. Ok, a lógica é a mesma, substitua indústria do arroz por indústria do álcool e a economia continua girando.

Nenhum político de nenhum partido vai acabar com as bolsas. Se você acredita em discurso político, azar o seu, mas quem manda na política é a economia e bolsa é bom para a economia!

E se bolsa é bom para a economia, é bom para todos. Mas dai você se pergunta, mas eu pago meus imposto e não recebo nada. Recebe sim peão. Você recebe educação, saneamento básico, saúde, segurança etc. Ou deveria, pois o dinheiro dos tributos (impostos) são revertidos para você em benefícios sociais. Como você é classe média, cheio de carnês para pagar, seu problema não é renda, afinal você estudou e está empregado. Bolsa é para pobre e você não é pobre.

Mas dai você vai me dizer, que educação? que segurança? que saúde? o Estado tá falido e os benefícios sociais uma bosta! Gotcha! Aqui chegamos no verdadeiro problema deste país varonil!

Impostos. Eu pago, você paga, mas e o grande industrial, paga? O classe média tem o imposto descontado na fonte, mas os grande produtores, empresários, comerciantes, banqueiros e profissionais liberais não. Eles sonegam impostos e, lembre-se, eles são os que mais ganham. Se eu tenho um salário de R$ 3.000,00, o leão vem e morde mais ou menos R$ 600,00. Mas o empresário que ganha R$ 30.000,00 sonega e, muitas vezes, não paga imposto algum!

Mas eu não vejo ninguém chamando os tubarões sonegadores de impostos de vagabundos! Vagabundo é o pobre coitado que é pobre, miserável. Ele é o vagabundo?

Você já passou fome? Morou em barraco com esgoto a céu aberto? Eu não. Do alto da comodidade de classe média que sou, parece muito fácil falar que vagabundo é quem vive de bolsa-isso, bolsa-aquilo. Agora, você reclama do caixa dois da sua empresa? Bota a boca no trombone quando sabe que seu chefe sonega imposto?

Eu não sei, mas acho que é mais fácil chutar cachorro-morto que enfrentar o pit-bull da realidade…

É isso!


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