Archive for the ‘Reflexões’ Category

Fragmentos…

22.setembro.2016

O quê eu faço aqui? Bem, essa resposta é complexa. Talvez você já tenha me lido por aqui mesmo e pense que eu ressurgi do nada. Talvez você tenha me lido no outro blog. Dois eus? Não e sim. Dois talvez seja pouco, talvez eu seja muitos, é que fragmentar-me é a forma mais sensata do exercício de ser eu. Será?

Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?

Aquela velha canção do Oswaldo, o Montenegro, sempre acha um jeito de me atormentar. Às vezes ela surge do nada numa playlist qualquer. Às vezes emerge de minha memória. Pouco importa como me venha, é uma daquelas músicas que sempre nos coloca a pensar.

Certa vez, em Porto Alegre, escrevi sobre amor e trens, acho que foi aqui. Trens são legais. Há uma locomotiva, força motriz da composição. Nos meus tempos de menino, a professora pedia para a gente escrever uma composição. Nessa época algo nos movia a escrever composições. Bom, a bem da verdade, acho que algo nos empurrava. Voltemos ao trem. A composição é o conjunto. Locomotiva e vagões. Força motriz e histórias. Cada vagão carrega uma de nossas histórias, que eu gosto de chamar de fragmentos. Cada fragmento do trem ocupa uma vaga. Puxados pela locomotiva, vagam pelos trilhos que, longe de terem destino certo, depende dos caprichos do maquinista. Há desvios, há encruzilhadas, há pontes e, por vezes, descarrilamentos. Lulu Santos cantou que a vida quase nunca é um balão. Óbvio, ela é um trem. Será?

Meus defeitos, o que de melhor havia em mim. Passei algum tempo achando que eu tinha algum defeito. Desses, de fabricação. Um parafuso solto. Pior, um parafuso torto, daquele que empena e não há ferramenta que dê jeito. Sim, não vou me omitir. Errei mais vezes que a cota de isenção de julgamentos permite. Mas errar, diz o ditado, é coisa nossa, coisa de gente, coisa das gentes, pois gente não é singular, gentes são plural. Muitos vagões, cada qual com suas bagagens. Muitas locomotivas. Algumas tão azeitadas e eficientes, coisa de inglês. Outras, enferrujadas e dormentes. No mais das vezes, apenas trens, normais, comuns, gentes.

a gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela!

Gonzaguinha fala da gente. Canta, na verdade. Não, não de eu ou você (ou seria eu e você? será?). Fala da gente, das gentes. A gente tá ai, tamos ai, mas não tamos de bobeira. Por isso o grande amor da sua vida não está lá, num trem em Porto Alegre. Alguém pode estar a se perguntar, que sei eu sobre os grandes amores? Muito pouco. Apesar de eu, assim como Martinho, o da Vila, ter tido tantas mulheres, quase nada sei sobre grandes amores. Muitas vezes, já que estamos em Porto Alegre, tudo se resume a um refrão de bolero.  Engenheiros entendem de trens, ouça-os!

A vida é feita de fragmentos. Costurados, eles contam a nossa trajetória. A costura aparentemente segmentada que junta dois tecidos é, na verdade, uma trama que traça trilhos, traça trilhas. É a cartografia de nossa existência. Alguns vagões podem se perder, descarrilar. Às vezes é a locomotiva que para, nos deixando de repente. Por vezes, o maquinista entra em greve. É na composição que o sentido se encontra. Compor está além do rimar, do musicar, do inventar. Compor é contar. Eu, menino distraído que mal compunha o que a professora pedia, um dia, mais atento, atentei ao caminho. Ali, sozinho, errando pelo caminho, avistei uma luz. Um trem. Aonde, perguntei-me. Ali… Respondi-me. Não sei se no fim do túnel, não sei se no começo… Será?

E assim, no fim do texto, é que começo a falar das gentes (ou seria da gente?). Assim começa a composição… será?

EdMort

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Apenas mais um texto escrito na madrugada…

24.julho.2016

A gente encontra insights nos momentos mais inesperados. Às vezes, de pessoas inesperadas. Curioso.

Fechei uma janela e abri outra. Ou seriam abas do navegador? Pouco importa. Enquanto o cão que late todas as madrugadas segue fiel a sua tarefa, eu olho pela janela do apartamento e vejo as luzes que iluminam a deserta avenida. A janela do apartamento, a janela do computador. Janelas… através das janelas podemos ver e apenas ver. A luz âmbar envolve-se no sereno da madrugada, cria um efeito leitoso, um facho se abre. Não posso tocá-la, para isso seria preciso estar lá e não aqui.

Janelas! Escrever é um ato solitário. Mas é, ao mesmo tempo, uma conexão. Raramente escrevo pensando em quem vai ler o que eu escrevo, embora eu saiba que, eventualmente, alguém lerá. O que eu quero dizer é que raramente escrevo pensando em um leitor. Raramente…

Janelas… um carro passa pela avenida. Teria seu motorista reparado que há uma janela acesa (ao menos uma, a minha, supondo que as demais estejam, como manda o ritmo da noite, apagadas… divagações). A vida acontece em tantas instâncias, o aparente deserto da avenida é só um momento. Fugaz momento, daqui algumas horas estará cheia de pessoas indo e vindo… pessoas indo e vindo.

Certa vez, numa palestra sobre Epicuro, ouvi a frase “depois de uma certa idade, acumular amigos é melhor que acumular dinheiro”. Eu não me recordo o contexto em que foi dita, mas era a defesa de um argumento, pouco importa. Na época concordei. Hoje, tenho minhas ressalvas. Acumular não me parece o termo certo. Amigos vêm e vão, são como as pessoas na avenida, indo e vindo… E há momentos desertos também.

Cultivar. Cuidar. Querer… verbos. Acho que o cão cansou, ou o seu latido já não me incomoda mais. Perdeu-se ao fundo. O céu lá fora começa a ganhar novas cores. Logo amanhece. Logo eu fecho as cortinas e adormeço no sofá. Ou a bateria do computador acaba, das duas uma… não sei se conseguirei terminar este texto. Não sei que fim ele poderia ter.

Talvez deixe-o em aberto…

 

 

Chegou aqui? Já era cliente?

30.março.2015

Pule para cá: http://www.edgar.pro.br/blog/ 😉

People are strange…

26.março.2014

Um dos filmes que eu mais gosto, não pela sua qualidade artística ou por qualquer outro rococó estético, mas pela época ao qual ele me remete, as minhas lembranças, é Lost Boys, que no Brasil ganhou o título de Garotos Perdidos.

É um filme sobre vampiros, numa época em que vampiros ainda não eram modinha e não brilhavam no sol. Eram vampiros old school, cujo único propósito era chupar o sangue alheio. Mas não é um filme só sobre vampiros… É um filme sobre pessoas. Pessoas estranhas… aliás, o título do post é o nome de uma das músicas da trilha sonora de Lost Boys: People Are Strange, que é do Doors, mas no filme tem a performance da banda Echo and the Bunnymen.

Pessoas são estranhas. Sim, sempre. No filme há a gangue de arruaceiros, há os nerds, o garotão descolado, o adolescente em busca de sua tribo, a mãe divorciada, o avô maluco… Todos pessoas estranhas, como eu e você.

Ao longo da minha vida, por conta da minha profissão, fiz contato com muita gente. Gente de todas as espécies. Gente boa, gente ruim, gente sã, gente insana, gente agradável, gente desagrável… e por ai vai. Na certa, você também conhece todo o tipo de gente.

No filme, uma família se muda para uma cidade costeira, que por alguma razão, é a morada de uma bando de vampiros. Obviamente os vampiros são a gangue de arruaceiros, porque nos anos 80, estereotipar as pessoas era palavra de ordem. Embora o visual glam dos vampiros, bem David Lee Roth ou Jon Bon Jovi nos tempos dos cabelos repicados e os collants coloridos, há um clima macho alfa dominante, a garota gostosinha é propriedade do grupo e vai ser disputada pelo jovem que acaba de chegar na cidade. Entre corridas de moto e desafios de coragem na linha do trem, ali se coloca uma das marcas do humano: a rivalidade.

No nosso dia a dia, rivalizamos com tudo. Das formas mais bestas e declaradas, como na pancadaria irracional das torcidas de futebol e, por quê não dizer, na própria imbecilidade do futebol, mas também nas micro relações cotidianas, naquelas mais sutis, como a escolha de um sapato para ir na balada, rivalizamos com tudo.

Mulheres são rivais mais declaradas. Mulheres se vestem para outras mulheres. Porque homem é tudo bicho primitivo, pouco importa a blusa, saia, salto alto, o que homem quer mesmo é a pele nua e suada no calor do vuco-vuco… Bom, mas isso é outra história, voltemos ao tema.

Pessoas são estranhas. Rivalizamos a todo momento e, entre rivais, tudo o que não é da minha prática, me é estranho. Montaigne matou a charada nos seus Ensaios. Conviver com as diferenças é, talvez, a maior dificuldade imposta à espécie humana. Não creio que um dia chegaremos a superar essa condição, sou um pessimista. Até lá, seguimos sendo… Estranhos.

Por hoje é só.

Você não vai encontrar o amor de sua vida no metrô de Porto Alegre

22.março.2012

Fones de ouvido. De todas as cores. Todos plugados nas cabeças. O metrô de Porto Alegre, que não é metrô, é trem… Trensurb! Nos trens de Porto Alegre as pessoas vão e vem todas imersas no seu universo musical. Ninguém se olha, ninguém se vê e ninguém, muito menos, se ouve. Eu, o turista, com seu típico olhar, vejo a todos. Centenas de pessoas que nunca tinha visto, centenas de pessoas que nunca verei novamente… Mas não era sobre isso que eu queria escrever.

O amor de sua vida não está num trem em Porto Alegre, que de alegre não tem lá muita coisa. Porto Alegre é, pelo menos nos lugares que percorri, uma cidade mal cuidada. Prédios feios, sujos. Calçadas despedaçadas. Mas é pitoresca, esse ar de abandono, de descuido dá a Porto Alegre um charme marginal… mas quem sou eu, um turista de um dia e meio em Porto Alegre, para descrevê-la? Voltemos ao título…

O amor de sua vida deve estar por ai, mas não num trem em Porto Alegre. Pessoas vem e vão, de trem, metrô, carro e a pé. Pessoas se cruzam, se vêem, se olham, se notam, se perdem, se esquecem, se encontram, se reencontram… pessoas se, se, se… Mas não vai ser aqui no metrô, trem, de Porto Alegre que pessoas se, se, se… aqui no trem, que toda hora eu chamo de metrô, as pessoas apenas ouvem-se a si mesmas em suas playlists…

O amor de sua vida está ai, do seu lado, mesmo que seja num veículo ferroviário numa cidade do sul, numa capital que abriga um porto. O amor de sua vida é alguém que você vê, olha, ouve, nota, encontra, reencontra todos os dias… é alguém que está perto. Seja em Porto Alegre, São Paulo ou Manaus, o amor de sua vida está ai…

Eu não escrevo isso por experiência… Sei que o amor de minha vida não está aqui no aeroporto de Porto Alegre. Neste terminal de embarque há pessoas que, indo e vindo, apenas passam… a mulher que me olha sentada duas filas de bancos à frente, imaginando o quê eu escrevo (e o que eu ouço, pois sim, eu também estou com um fone de ouvido), não é o amor da minha vida… ela está sem fones de ouvido, turista!

O amor da minha vida, e o da sua também, esta ai. Olhe! Aprenda a olhar… ah, e tire os fones de ouvido, para que o amor da sua vida não ache que você está só de passagem!

🙂

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Porto Alegre, 22 de março de 2012.

Tempo!

26.fevereiro.2012

Tempo, essa incógnita!
A Física te explica, mas não te dá significado.
A vã filosofia sabe de ti e não sabe de ti, ao mesmo tempo!
Tempo!
Tempo que dura, que flui, que passa, que não passa…
Duas horas na sala de aula, duas horas nos braços da mulher amada,
Duas horas nunca são o mesmo tempo nem ao mesmo tempo.
Tempo, rio que não se atravessa duas vezes.
Tempo, aquele eterno intervalo espacial entre momentos
Momentos em que esqueço do tempo…

Boa noite 😉

Insônia

01.fevereiro.2012

“Tem dias que a gente se sente um pouco, talvez, menos gente…”, essa introdução de uma música do Raul Seixas me vem à cabeça neste momento que resolvi dar uma atenção a este esquecido blog… Mas não era de música que eu queria falar…

Perdi o sono. Evento raro nesta minha existência. O silêncio da madrugada nos convida a pensar… Coisa de filósofo, coisa de gente… as ideias rodopiam na cabeça… a maldita tese de doutorado, empacada na encruzilhada de outros tantos eventos que se justapõem aleatoriamente a si mesmos… o alívio da alforria de sentimentos e angústias que me assolavam à alma… a reunião de daqui cinco horas ocorrerá, momento em que este sono que falta agora virá com a fúria de mil e uma noites mal dormidas…

Hoje eu disse algo ao meu irmão, depois repeti aos meus amigos, os rockers, algo que imortalizo nas tramas binárias deste sombra digital-virtual do que sou: estou feliz.

Até a próxima insônia!

Quão poderosos nós somos?

27.julho.2011

É, eu sei… você anda meio abandonado! Culpa do twitter… ideias surgem, viram 140 caracteres e desaparecem antes que eu consiga fazer o login em você! Talvez seja culpa do doutorado. Cada vez que penso em escrever sobre alguma bobagem qualquer, me bate um sentimento de perda de tempo… afinal o doutorado é (?) mais importante. No fundo, mea culpa, a culpa é minha, sou um ser humano! Mas hoje eu vim aqui me redimir… querido blog.

Fui provocado pelo meu irmão a escrever sobre How powerful are we?

É, veio assim mesmo, em inglês. Quão poderosos nós somos? Bom, eu sou um pessimista moderado e talvez eu comece dizendo que não, não somos! Mas não vou me precipitar. Cartesianamente, vamos dividir essa questão em partes: O que é ser poderoso? Segundo o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, poderoso pode significar

  1. adj., que tem poder de exercer domínio sobre alguém ou sobre alguma coisa;
  2. adj., que tem grande vigor;
  3. ad., que tem efeito intenso;
  4. s.m., pessoa que tem poder ou domínio sobre os outros;
  5. s.m. pl., aqueles que, numa sociedade, detêm o poder.

Vemos que nos casos 1, 4 e 5, poderoso está associado às relações poder entre pessoas e/ou coisas. Já nos casos 2 e 3 poder está associado a forças ou energias próprias. Assim, retomando a questão inicial, no sentido semântico, podemos dizer com certeza que sim, somos poderosos. Todos nós, em algum nível, exercemos poder ou domínio sobre outras pessoas ou coisas. Relações familiares, amizades, círculos sociais, trabalho, escola etc. Todos exemplos de esferas nas quais o poder se manifesta e nas quais somos, em alguma medida, poderosos. A vida em sociedade é um arranjo de poderes e, nesse sentido, enquanto seres sociais, somos poderosos. A questão fulcral, o quão poderosos somos?, encontra sua resposta em múltiplas dimensões, vejamos:

  • financeira: mais poderoso quanto mais rico;
  • sexista: homens são mais poderoso que mulheres, heterossexuais mais poderosos que homossexuais etc.;
  • educacional: mais poderosos quanto maior a escolaridade;
  • racial: mais poderosos quanto mais clara a pele;
  • estética: magros mais poderosos que gordos;
  • etc.

Na dimensão social de nossas vidas, fica claro que somos poderosos. O quão poderosos nós somos depende de circunstâncias e dos padrões que a própria sociedade, dinamicamente, estabelece. Mas você deve se lembrar que eu sou um pessimista moderado. Poder é ilusório. Transitório talvez seja um termo melhor, poder é transitório. Ser poderoso é nossa forma de sobreviver.

Metafisicamente falando, há quem acredite em um poder superior, um todo-poderoso. Nada mais simples, afinal se somos seres sociais condicionados a relações de poder, quando entramos no terreno da metafísica, esperamos que exista a mesma relação de poder e dominação naquilo que nos precede. E aqui surge uma faceta intrigante do poder. Estar sob o poder de outrém pode ser, pasme, poderoso.

Poderoso no sentido de do caso 3, pois a submissão tem um efeito poderoso sobre as pessoas. Sim, a submissão é poderosa. Submetemo-nos ao poder de outros muitas vezes pela segurança. Lembre-se que eu disse que ser poderoso é uma forma de sobreviver, mas é uma forma coletiva de sobreviver. É na relação poderoso-submisso que se encontra a sobrevivência. O que me conduz a minha afirmação-negação inicial: não, não somos poderosos. Estatisticamente falando, somos majoritariamente submissos à sociedade, à tecnologia, às divindades, à ciência… uma meia dúzia têm o poder, estão no topo. Mas ainda assim, essa meia dúzia de poderosos vive na ilusão.

Não somos poderosos, somos medrosos. O medo, esse sim, nos leva a dominar ou ser dominados. Simples. Medo da morte. Medo do fim. Medo do desconhecido. É o medo o motor da evolução do ser humano. Um reles organismo microscópico pode nos levar à morte, contra ele inventamos o poder da ciência, da medicina. Uma chuva torrencial pode causar inúmeras mortes, contra ela inventamos deuses e planos divinos. Escolher por onde ir, o que comer, onde dormir pode nos levar a morte num penhasco, numa erva venenosa, numa cova de ursos… e contra tudo isso inventamos os lideres, deixamos que eles escolham.

Quão poderosos nos somos? Zero. Somos pó de estrelas e pó de estrelas seremos!

😉

Edmorte!

Panta Rei II

02.junho.2011

Tudo passa… tudo muda… tudo está em constante transformação… fluxo… movimento. Ideias presentes na filosofia de Heráclito. Curiosamente Panta Rei (tudo flui) é o post mais famoso desde desconhecido blog. https://edmort.wordpress.com/2007/03/22/panta-rei/

O grande oráculo pós-moderno, o Google, coloca meu post em 2º lugar nas busca por ‘panta rei’, talvez por isso o meu blog tenha um modesto fluxo de visitantes… mas não era disso que eu queria falar hoje!

Panta Rei. Tudo flui… e eu vou fluindo… mudando, transformando, metamorfoseando-me… como diz o poeta-músico Oswaldo Montenegro

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?

é em cada olhar que o ‘espelho de agora’ me devolve que me (re)conheço… nas fotos antigas que retratam aquele menino com cara de bobo, aquele adolescente rebelde-nerd-sem-causa, aquele jovem inspirado a mudar o mundo… nelas eu percebo o rio que passou. Nas águas da minha história encontro desejos não realizados, amigos perdidos… é, não foi do jeito que achei que seria.

Tudo flui… o tempo flui… a água quente do banho flui pelo corpo ainda sonolento nas manhãs frias de outono-inverno… é no banho que surgem minhas melhores ideias… é no fluxo d’água que lava a alma que meus neurônios funcionam melhor… mas assim como as gotas são absorvidas pela toalha, assim as ideias me escapam, dissipam-se com os vapores tão logo a porta se abre para o closet da realidade… tudo flui, a correnteza segue seu rumo.

Meu amigo Sócrates, não o que jogou no Corinthians, o outro, grego, sempre me dizia em nossas conversas de fim de tarde lá na minha antiga casa que uma vida não examinda não merece ser vivida. Grande Sócrates! Examinar nossas vidas é um exercício doloroso, pois tendemos a congelar os momentos fluídos de nossa existência, na ânsia de revivê-los, corrigí-los ou derretê-los… dói. Examinar a vida é compreender seu fluxo. É encontrar o equilíbrio entre a foto antiga e o espelho de agora. É compreender que o que foi, foi. O Devir, o eterno vir a ser, esse é o nosso timoneiro!

Acho que estou divagando… Panta Rei! Tudo passa, muda, flui… mudemos então o foco!

Eu sou um acadêmico. Este blog é meu subterfúgio ao formalismo e ao rigor metodológico… aqui as ideias fluem, confluem, fundem e confundem… aqui eu brinco de ser poeta, brinco de ser sério, brinco de não-ser… como acadêmico, estou em meio a um doutorado, em busca de um título, em busca de respostas acadêmicas, em busca de um salário melhor… maldito vil metal, em busca da empregabilidade… como aprendiz de filósofo (do filósofo real, não o acadêmico), estou em meio ao fluxo quântico da incerteza… incerteza de quando a porção acadêmica terá um tempo (como este) para ceder ao alter-ego subversivo que agora cata-milho neste pequeno aparato tecnológico que não funciona debaixo d’água!

Eu escrevo para mim. Escrevo para me reescrever. Escrevo para alguns poucos amigos físicos, parceiros de toda a vida, seja por sangue, seja por cerveja. Escrevo para uns poucos conhecidos que me encontraram no fluxo deste info-rio. Escrevo para aqueles que inadivertidamente caem nas águas do meu blog pelo timão do google. Escrevo para ser imortal.

Continuo divagando… continuo fluindo… meu ego me chama à realidade… meu alter-ego despede-se… divagando, devagar…

Panta Rei!

 

 

 

 

 

 

Que tal um post sobre vinil?

26.maio.2011

O título deste post me foi provocado pelo meu amigo rechones há muito tempo… muito tempo em termos de internet pode ter sido ontem à tarde, semana passada ou 5 meses atrás… tempo é relativo, psicológico e, como dizem as mulheres, cruel!

Meu primeiro vinil foi um disquinho de estórinhas do Sapo Edgar narrado pelo Silvio Santos. Meu segundo vinil eu não lembro. O primeiro vinil verdadeiramente meu, comprado com o meu dinheiro, foi do Thor, uma banda de Heavy Metal oitentista e relegada ao ostracismo. Depois desse, vieram algumas dezenas, uns cinquenta talvez.

Vinil era peça de museu, mas agora é vintage. Na europa encontrei vinil de bandas recentes, de álbuns recentes, com preços indecentes frente à bagatela do CD… lá na europa vinil é cult. Impressionante como algo que, supostamente morto, ressurge com força em certos guetos culturais… guetos de elite, pois bancar a onda da volta ao vinil não é barato.

Para as novas gerações, vinil é cultura morta. Um deus morto. O digital é o novo deus. E ainda bem que novos deuses surgem… Zeus é vinil, Jesus é digital. E o que realmente me interessa é o que vem a seguir. Eu sempre estou na espectativa da próxima nova-velha-tecnologia que ainda não surgiu mas que já terá data para falecer. O DVD já era. BluRay nem tenho, nem comprei, o que vem a seguir será melhor. Dai eu compro, mesmo que seja a volta ao VHS…

Vinil é uma bosta. Risca, pega chiado, entorta no sol e ocupa muito espaço. CD é uma bosta. Risca, engasga, descasca e entorta no sol. Bom mesmo será quando o MP3 estiver dentro da cachola. Um chip biosintético acoplado ao cérebro. O MP3 toca dentro da sua cabeça. Nada de gadgets, iBostas e traquitanas que consomem bateria… a bateria é o BigMac que será queimado para alimentar o biochip. Delírios…

Vinil é legal, eu gosto. Mas eu sou um velho. Mas isso é relativo…

Na mesa ao lado da minha sentou-se um colega de labuta com um iPad… velharia, é um iPad 1.0… meu netbook philco de R$ 639,00 em 12x no Wal-Mart  ri do iPad dele… Ele, ri do meu netbook… rimos todos.

Vinil me deu muitas alegrias. Fui muito feliz no embalo dos vinis! Mas também já desejei a morte acompanhado de um vinil. Já quis acabar com a angústia. O vinil não me salvou, mas esteve ali, juntinho, pronto a soluçar…

O cara do iPad foi embora. Fez o que fez rapidamente, pois o tempo é cruel. Tempo que mata a gente. Tempo que miraculosamente me sobra nesta manhã para escrever este mal digitado post.

Milhares de ideias me vem à cabeça… uma meia dúzia delas vira palavra concreta. Vinil foi uma que escapou ao turbilhão abstrato que condena minhas ideias ao meu limbo encefálico. Vinil sobreviveu no meu ideário…sobreviveu ao CD… tem seu lugar ao sol na sociedade do consumo… mas cuidado! Vinil no sol entorta.

Adios.